Uma tempestade solar pode derrubar a internet? O risco real por trás do “apocalipse digital”

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Avatar de André Basper

Imagine acordar e perceber que o GPS deixou de funcionar, algumas transmissões de rádio foram interrompidas, satélites estão apresentando falhas e regiões inteiras enfrentam problemas no fornecimento de energia.

Não houve ataque cibernético. Nenhum país declarou guerra. Também não foi necessário cortar fisicamente um único cabo.

O problema começou a aproximadamente 150 milhões de quilômetros da Terra.

De tempos em tempos, o Sol libera enormes quantidades de energia e matéria em direção ao espaço. A maior parte desses eventos passa longe do nosso planeta ou produz apenas belas auroras. Em determinadas condições, entretanto, uma dessas tempestades pode atingir o campo magnético terrestre e interferir justamente nos sistemas tecnológicos dos quais a sociedade moderna se tornou dependente.

É nesse ponto que surgem manchetes sobre um possível “apocalipse da internet”.

O risco não é completamente inventado. Tempestades solares já derrubaram redes elétricas, prejudicaram sistemas de navegação e destruíram satélites. O exagero está em transformar um fenômeno complexo em uma previsão simples: a ideia de que uma única explosão no Sol poderia desligar toda a internet mundial durante meses.

A realidade é menos cinematográfica, mas ainda merece atenção.

O Sol não é uma esfera tranquila

Visto da Terra, o Sol parece praticamente imutável. Ele nasce, atravessa o céu e desaparece no horizonte todos os dias. Sua superfície, porém, está longe de ser estável.

O Sol é formado por plasma, um estado da matéria composto por partículas eletricamente carregadas. O movimento desse plasma produz campos magnéticos que podem se torcer, acumular energia e reorganizar-se repentinamente.

Essas alterações estão relacionadas a diferentes fenômenos.

As erupções solares são explosões de radiação eletromagnética. Como essa energia viaja à velocidade da luz, seus efeitos podem alcançar a atmosfera terrestre cerca de oito minutos depois de serem observados. Dependendo da intensidade, podem interferir nas comunicações por rádio de alta frequência na parte iluminada do planeta.

Já as ejeções de massa coronal, conhecidas pela sigla CME, lançam enormes nuvens de plasma e campos magnéticos pelo espaço. Elas são mais lentas. Segundo o Centro de Previsão do Clima Espacial da NOAA, as mais rápidas podem chegar à Terra em aproximadamente 15 a 18 horas, enquanto outras levam vários dias.

Uma erupção solar e uma ejeção de massa coronal podem acontecer juntas, mas não são a mesma coisa.

Também não basta que uma grande quantidade de matéria seja lançada pelo Sol. Para provocar uma tempestade geomagnética intensa, a ejeção precisa atingir a Terra e apresentar uma orientação magnética favorável à interação com a magnetosfera do planeta.

Em outras palavras, uma explosão gigantesca pode não causar grandes problemas se for lançada em outra direção ou se o seu campo magnético não se conectar de maneira eficiente ao campo terrestre.

O que acontece quando a tempestade chega?

A Terra é cercada pela magnetosfera, uma região dominada pelo campo magnético do planeta. Ela funciona como uma proteção contra grande parte das partículas carregadas vindas do espaço.

Quando uma ejeção de massa coronal atinge essa região, pode comprimir e perturbar o campo magnético terrestre. Parte da energia é transferida para a magnetosfera, produzindo aquilo que os cientistas chamam de tempestade geomagnética.

As auroras são a manifestação mais bonita desse processo. Partículas energéticas interagem com os gases da atmosfera, produzindo luzes que podem ser observadas muito além das regiões polares durante eventos intensos.

Mas a mesma perturbação magnética também pode gerar efeitos menos agradáveis.

Variações rápidas no campo magnético induzem correntes elétricas em estruturas condutoras muito extensas. Linhas de transmissão de energia, oleodutos e determinados sistemas de comunicação podem funcionar como caminhos para essas correntes.

A ameaça, portanto, não é uma espécie de “raio solar” queimando diretamente todos os aparelhos eletrônicos.

O problema está principalmente na interação da tempestade com infraestruturas grandes, interconectadas e dependentes de eletricidade, navegação ou comunicação por satélite.

Quando telégrafos começaram a funcionar sem bateria

O exemplo histórico mais conhecido aconteceu em setembro de 1859.

Na manhã de 1º de setembro, o astrônomo britânico Richard Carrington observava manchas solares quando percebeu dois pontos extremamente brilhantes. Pouco tempo depois, instrumentos magnéticos registraram uma perturbação, e auroras foram vistas em regiões onde normalmente jamais apareceriam.

O fenômeno ficou conhecido como Evento Carrington.

A sociedade daquele período ainda não possuía satélites, GPS, aviões comerciais, redes elétricas continentais ou internet. O telégrafo era uma das poucas tecnologias conectadas por longos fios metálicos.

Mesmo assim, operadores sofreram choques, equipamentos produziram faíscas e alguns escritórios registraram incêndios. Em determinados locais, as correntes induzidas pela tempestade foram tão intensas que os aparelhos continuaram transmitindo mensagens mesmo depois de suas baterias serem desconectadas.

A infraestrutura do século XIX era pequena, mas já revelou o princípio do problema: uma forte variação do campo magnético terrestre pode produzir eletricidade em condutores de grandes dimensões.

A NOAA considera o Evento Carrington a principal referência histórica para o planejamento contra tempestades solares extremas. Estimativas atuais indicam que ele pode ter sido várias vezes mais intenso do que a tempestade geomagnética registrada em maio de 2024, embora reconstruir com precisão um evento ocorrido antes dos instrumentos modernos envolva incertezas.

O apagão que começou no espaço

Em 13 de março de 1989, a província canadense de Quebec sofreu uma demonstração muito mais moderna desse risco.

Uma tempestade geomagnética induziu correntes na rede de transmissão da Hydro-Québec. Sistemas de proteção foram acionados em sequência e, em menos de dois minutos, a rede entrou em colapso.

Milhões de pessoas ficaram sem eletricidade por aproximadamente nove horas.

O episódio não provou que qualquer tempestade solar inevitavelmente derruba redes elétricas. A vulnerabilidade depende da intensidade e duração da perturbação, do tipo de solo, da latitude, da extensão das linhas e da configuração dos equipamentos.

Mesmo assim, Quebec mostrou que o clima espacial não era apenas um assunto para astrônomos. Um evento iniciado no Sol poderia produzir consequências econômicas e sociais no solo.

Depois do apagão, empresas do setor elétrico passaram a dedicar mais atenção às correntes geomagneticamente induzidas, criando procedimentos de monitoramento e proteção.

A tempestade de 2024 colocou o sistema à prova

Entre 10 e 11 de maio de 2024, a Terra enfrentou a tempestade geomagnética mais intensa em mais de duas décadas. O evento, posteriormente chamado de tempestade Gannon, atingiu o nível G5 — o mais alto da escala utilizada pela NOAA.

Auroras foram observadas em regiões incomuns, inclusive em áreas do sul do Brasil. Operadores de redes elétricas e satélites receberam alertas, enquanto serviços de GPS e comunicações por rádio de alta frequência apresentaram degradação.

O impacto foi especialmente perceptível na agricultura de precisão. Máquinas agrícolas que dependiam de posicionamento por satélite perderam exatidão, obrigando produtores a interromper determinadas operações.

Satélites em órbita baixa também enfrentaram aumento do arrasto atmosférico. Durante uma tempestade geomagnética, a atmosfera superior aquece e se expande, aumentando a resistência encontrada por objetos que orbitam em altitudes relativamente baixas.

Apesar de ter alcançado a classificação G5, a tempestade não provocou o colapso da internet nem um apagão elétrico generalizado.

Isso é importante porque demonstra duas coisas ao mesmo tempo.

A primeira é que tempestades solares realmente interferem em tecnologias modernas. A segunda é que a classificação máxima não significa automaticamente o pior cenário imaginável. Eventos G5 podem apresentar intensidades, durações e orientações magnéticas diferentes.

O fato de o sistema ter resistido em 2024 não significa que toda tempestade futura será inofensiva. Mas também mostra que existe uma diferença entre risco real e catastrofismo.

Uma tempestade solar destruiria os cabos da internet?

Grande parte do tráfego internacional da internet passa por cabos submarinos de fibra óptica. Isso leva a uma dúvida aparentemente inevitável: se uma tempestade geomagnética induz corrente em estruturas compridas, esses cabos poderiam ser destruídos simultaneamente?

A resposta curta é: não existe evidência de que isso aconteceria da maneira apresentada nas versões mais alarmistas.

A fibra óptica transmite informações por pulsos de luz e não conduz eletricidade como os antigos cabos telegráficos de cobre. Entretanto, um sistema submarino não é formado apenas por filamentos de vidro.

Ao longo dos cabos existem repetidores responsáveis por amplificar o sinal. Esses equipamentos precisam receber energia elétrica enviada pelas estações instaladas em terra. É nesse sistema de alimentação que tensões produzidas por variações geomagnéticas podem tornar-se relevantes.

O risco é tecnicamente possível, mas sua dimensão permanece em debate.

Um estudo publicado em 2024 pelo pesquisador David Boteler analisou a indução geomagnética em cabos submarinos e mostrou que o comportamento desses sistemas precisa ser calculado considerando tanto o cabo quanto os equipamentos de alimentação e aterramento.

Ao mesmo tempo, uma análise divulgada por engenheiros do Google concluiu que os cabos submarinos modernos possuem mecanismos capazes de acomodar as variações esperadas e que o risco de danos em grande escala seria baixo.

Existe uma razão para tratar essa conclusão com alguma cautela: o Google é uma das empresas que opera infraestrutura submarina e, portanto, não constitui uma fonte completamente independente. Ainda assim, sua análise utiliza dados de sistemas reais e não deve ser descartada apenas por causa da origem.

A posição mais intelectualmente honesta está entre os extremos.

Não há base suficiente para afirmar que uma supertempestade certamente destruiria os cabos e deixaria continentes desconectados durante meses. Também seria imprudente concluir que todos os componentes da rede foram testados contra qualquer evento solar possível.

O Evento Carrington ocorreu antes da internet. Não possuímos dados práticos sobre o comportamento de toda a infraestrutura digital moderna diante de uma tempestade com intensidade semelhante.

A internet não é uma única máquina

A expressão “derrubar a internet” também cria uma imagem enganosa.

A internet não possui um botão central. Ela é formada por cabos terrestres e submarinos, roteadores, centros de dados, antenas, pontos de troca de tráfego, sistemas de energia, redes móveis, satélites e milhões de equipamentos administrados por organizações diferentes.

Essa descentralização cria redundância. Se uma rota falha, parte do tráfego pode ser redirecionada por outros caminhos.

Mas a redundância não é infinita.

Uma falha em vários cabos, estações de aterragem ou centros de dados poderia reduzir a capacidade de comunicação de uma região. Problemas prolongados na rede elétrica poderiam retirar equipamentos de operação depois que baterias e geradores de emergência se esgotassem.

Nesse cenário, a tempestade solar talvez não precisasse destruir diretamente a internet. Bastaria comprometer durante tempo suficiente a eletricidade da qual ela depende.

Esse é provavelmente o elo mais importante e menos espetacular da discussão.

Seu celular, o roteador doméstico e a fibra que chega à residência não precisariam ser queimados pelo Sol. Se a rede elétrica, os sistemas de sincronização, os satélites ou os centros de dados fossem afetados, o serviço poderia desaparecer mesmo com os aparelhos fisicamente intactos.

Satélites e GPS estão entre os pontos mais vulneráveis

Enquanto os cabos terrestres e submarinos são protegidos pela atmosfera e pelo solo, satélites operam em um ambiente muito mais exposto.

Partículas energéticas podem afetar circuitos, painéis solares, sensores e sistemas de orientação. A expansão da atmosfera superior também aumenta o arrasto sobre satélites de órbita baixa.

Em fevereiro de 2022, uma tempestade geomagnética relativamente moderada contribuiu para a perda de 38 satélites recém-lançados. A atmosfera aquecida tornou-se mais densa na altitude em que eles se encontravam, impedindo que alcançassem a órbita planejada.

O GPS enfrenta outro problema. Seus sinais precisam atravessar a ionosfera antes de chegar aos receptores no solo. Durante tempestades solares, essa camada pode tornar-se irregular, introduzindo erros de posicionamento ou provocando perda temporária de sinal.

Isso afeta muito mais do que o mapa do celular.

Aviação, navegação marítima, agricultura, telecomunicações, operações financeiras e redes elétricas utilizam sistemas de navegação por satélite não apenas para localização, mas também para sincronização precisa de tempo.

Uma falha no GPS, portanto, pode produzir consequências em sistemas que aparentemente não possuem qualquer relação com mapas.

O “apocalipse digital” é uma previsão científica?

Não.

Existe uma ameaça reconhecida de interrupções tecnológicas causadas por clima espacial extremo. Governos, universidades, empresas de energia e operadores de satélites estudam esse risco seriamente.

Isso é diferente de afirmar que a ciência prevê uma data para o fim mundial da internet.

Não existe atualmente um método capaz de determinar com meses ou anos de antecedência quando uma supertempestade será lançada na direção da Terra. Também não é possível conhecer toda a estrutura magnética de uma ejeção de massa coronal assim que ela deixa o Sol.

Satélites de observação oferecem algum tempo para preparação. As erupções podem ser detectadas, a trajetória das ejeções pode ser estimada e alertas podem ser enviados aos setores responsáveis. Entretanto, algumas características decisivas só são medidas com maior precisão quando a nuvem solar se aproxima do planeta.

Operadores podem colocar satélites em modos de segurança, adiar lançamentos ou manobras, reorganizar operações elétricas e alertar setores dependentes de GPS e rádio.

Não é uma defesa perfeita. É uma forma de reduzir danos.

O perigo não é o Sol “queimar” as pessoas

Outra confusão comum envolve os efeitos biológicos.

Uma grande tempestade solar não faria pessoas na superfície serem imediatamente atingidas por radiação mortal. O campo magnético e a atmosfera da Terra fornecem uma proteção considerável.

Os riscos de radiação são maiores para astronautas e, em determinadas condições, para tripulações e passageiros de voos em grandes altitudes e rotas próximas aos polos.

Para a população no solo, o principal perigo seria indireto: interrupções de energia, comunicação, transporte, navegação e serviços essenciais.

Também não há razão para desligar celulares ou retirar aparelhos comuns da tomada sempre que uma erupção solar é anunciada. A maioria desses eventos causa pouco ou nenhum efeito perceptível para o público.

Alertas verdadeiramente importantes são emitidos por centros especializados e encaminhados aos operadores das infraestruturas que precisam tomar medidas.

Por que ainda devemos levar esse risco a sério?

A ausência de um apocalipse não transforma o problema em fantasia.

A sociedade atual depende de sistemas interligados de uma maneira que não existia em 1859 ou 1989. Energia, comunicação, logística, abastecimento, bancos, hospitais e transporte utilizam infraestruturas que podem falhar em cascata.

Uma interrupção regional de energia pode afetar telecomunicações. A perda de comunicação dificulta o reparo da rede. Problemas no GPS podem prejudicar transporte e sincronização. A interrupção do transporte atrasa o fornecimento de combustível para geradores.

O risco mais sério talvez não seja a destruição isolada de um equipamento, mas a combinação de falhas em setores que dependem uns dos outros.

Relatórios das Academias Nacionais dos Estados Unidos já alertavam para essa interdependência em 2008. Desde então, nossa dependência de serviços digitais, satélites e armazenamento em nuvem tornou-se ainda maior.

Em 2024, NASA e NOAA anunciaram que o Sol havia entrado na fase máxima do Ciclo Solar 25. Mesmo após o pico, a atividade não desaparece imediatamente. Em 2026, a NASA continuou registrando erupções solares fortes, mostrando que o Sol permanecia em um período relativamente ativo.

Isso não significa que uma supertempestade esteja prestes a atingir a Terra. Significa apenas que monitoramento, preparação e investimento em resiliência continuam necessários.

Então a internet pode cair por causa do Sol?

Partes dela, sim.

Uma tempestade solar extrema pode prejudicar satélites, GPS, rádio, redes elétricas e, indiretamente, serviços de internet. Regiões podem enfrentar lentidão, perda de conectividade ou interrupções prolongadas, especialmente se a eletricidade for comprometida.

O que não está demonstrado é o cenário de uma única tempestade apagando simultaneamente toda a internet mundial por meses.

A infraestrutura digital é vulnerável, mas também é distribuída, monitorada e parcialmente redundante. Sistemas modernos foram construídos com proteções que não existiam na época do Evento Carrington.

O maior erro seria escolher entre duas certezas igualmente frágeis: acreditar que uma tempestade solar inevitavelmente causará o fim da civilização digital ou concluir que nada de grave poderia acontecer.

Nenhuma das duas posições é sustentada pelas evidências disponíveis.

Talvez o verdadeiro alerta das tempestades solares não seja que o Sol esteja tentando destruir nossa tecnologia. É que construímos uma sociedade extremamente dependente de sistemas invisíveis e interconectados — e muitas vezes só lembramos dessa dependência quando alguma coisa deixa de funcionar.

O Sol sempre foi instável.

A novidade é que agora quase tudo ao nosso redor depende de não percebermos isso.

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